Prot. N.º 002/2025
Cidade do Vaticano.
Amados irmãos no episcopado,
saudação fraterna em Cristo, Pastor eterno e humilde servidor de todos.
Em tempos nos quais a aparência se tornou moeda corrente e o valor de um homem é muitas vezes medido por aquilo que apresenta ao olhar do mundo, o Senhor nos chama a regressar ao essencial. Somos pastores, não celebridades; somos servos, não donos do rebanho; somos instrumentos, não protagonistas do mistério divino. Por isso, este Dicastério deseja oferecer-vos uma palavra de reflexão, advertência e encorajamento: o cuidado com o ego.
I. O perigo sutil do ego episcopal
A sedução do “eu” não é novidade. Sempre acompanhou a humanidade, insinuando-se inclusive nas tarefas mais sagradas. O bispo, pela visibilidade do seu ministério, está particularmente exposto à tentação de medir o próprio valor pelo reconhecimento externo, pelo aplauso, pela aceitação pública — ou mesmo por aquilo que supõe ser sua “excelência interior”.
O ego, irmãos, não é apenas o orgulho aberto; é também aquela voz suave que nos leva a acreditar que o ministério é definido pela nossa performance, pelas nossas habilidades, pela coerência impecável de nossa presença. Quando isso acontece, deixamos de ser canais da graça para nos tornarmos vitrines de nós mesmos.
II. A tentação da Exibição
Em muitos lugares, cresce a cultura da exposição: expor, mostrar, destacar-se. Essa cultura permeia também a vida eclesial, quando o pastor começa a medir a fecundidade do seu serviço pelo impacto visível — número de seguidores, aclamações, elogios, eventos grandiosos, discursos que causam sensação.
Mas recordemos: Cristo não pediu que fôssemos admirados, e sim que fôssemos fiéis. O Senhor não nos chamou à autopromoção, mas ao testemunho silencioso, perseverante e humilde. A missão episcopal não é um palco, mas um altar.
III. O olhar voltado para si mesmo
Há momentos em que o pastor precisa realmente olhar para si: não para se aplaudir, mas para se examinar; não para se medir, mas para se purificar; não para se inflar, mas para se converter.
O exame interior é necessário, mas apenas se for feito à luz da verdade e não das ilusões do ego. Um bispo que se contempla em excesso corre o risco de perder a perspectiva do povo que lhe foi confiado. O olhar que deveria ser voltado para as ovelhas torna-se um espelho permanente, onde o pastor revisita repetidas vezes sua própria imagem, seus próprios méritos, suas próprias interpretações.
IV. O papel da humildade episcopal
A humildade não é timidez. A humildade episcopal é fortaleza firme, ancorada na consciência de que tudo é graça. Ela nos liberta da necessidade de aprovação humana e nos coloca no centro da vontade de Deus. A humildade devolve ao bispo o coração de pastor, não de gestor; de pai, não de chefe; de servo, não de figura pública.
O povo de Deus reconhece e ama um pastor humilde. É no silêncio da humildade que a autoridade espiritual se fortalece, cresce e fecunda. A verdadeira grandeza episcopal não brilha, ilumina.
V. Chamado à conversão contínua
Portanto, irmãos, este Dicastério vos convida a uma revisão profunda e contínua de vida. Perguntemos a nós mesmos:
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Tenho buscado mais ser visto do que servir?
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Estou mais preocupado com a minha imagem do que com o sofrimento silencioso do meu povo?
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A minha palavra nasce do Evangelho ou da necessidade de afirmação pessoal?
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Tenho deixado o Espírito agir ou tento controlar tudo para preservar experiências e aparências?
O bispo que se deixa converter diariamente torna-se um instrumento dócil, flexível, livre — porque já não vive para si, mas para Cristo.
VI. Concluindo com esperança
Não temamos reconhecer os desvios do ego; temamos antes ignorá-los. Nosso Senhor conhece nossas fragilidades e nos chama a caminhá-las com coragem e verdade. Que cada um de nós possa, mesmo entre lutas internas, repetir com João Batista: “É necessário que Ele cresça e que eu diminua.”
Que Maria, a humilde serva do Senhor, nos ensine a guardar um coração simples. Que cada bispo possa renunciar ao fardo da autocriação e abraçar a leveza do serviço despretensioso.
Recebei, irmãos, esta exortação como um convite à liberdade interior, para que o rebanho que vos foi confiado encontre em vós não a imagem que o mundo produz, mas o rosto misericordioso do Bom Pastor.
Em Cristo,

